Blog
13

jun

2017

Vozes e olhares revelam a tragédia do Teles Pires

Documentário e midiativismo se encontram

Como degraus de uma escada em direção ao céu, coberta pela espuma d’água, a cachoeira das Sete quedas, ou Paribixexe, é um lugar sagrado para os Munduruku. Este é o reino dos mortos, que esconde portais para mundos desconhecidos, acessados somente por líderes espirituais. As urnas funerárias dos antigos guerreiros também repousam no local. Porém o santuário sucumbe às obras das hidrelétricas. Nem os mortos, nem os vivos são poupados.

Entre tiros e agressões, os indígenas são expulsos da terra sagrada, transformada em campo de batalha. Enquanto o rio Teles Pires adoece diante de mais uma usina que é erguida na bacia do Alto Tapajós, nem os mais fortes guerreiros indígenas podem impedir.

Durante as gravações do documentário “O Complexo”, as câmeras registram os múltiplos olhares sobre as obras e revelam as irregularidades do processo. A equipe da Forest estava preparada para captar a história durante o seu desenrolar. O encontro entre os profissionais e os atingidos ocorreu também afastado das câmaras, ao compartilharem a comida ou um banho de rio.

 

Histórias das populações afetadas pelas hidrelétricas se cruzam no documentário "O Complexo" (Imagem: Forest Comunicação)

Histórias das populações afetadas pelas hidrelétricas se cruzam no documentário “O Complexo” (Imagem: Forest Comunicação)

 

Tudo começou com um desejo: mostrar ao público o que acontece longe do alcance dos seus olhos. João Andrade, do Instituto Centro Vida (ICV) e co-roteirista do curta-metragem, lembra que os conflitos gerados pelas usinas no Alto Tapajós são praticamente desconhecidos pela sociedade e o documentário era uma oportunidade de mostrar os problemas enfrentados pelas populações afetadas. O desafio era contar histórias reais a partir das vozes daqueles que participam das narrativas.

Entre viagens de campo e registros de reuniões em 2015, o diretor Thiago Foresti conta que foram mais de 15 horas gravadas. A seguir, foi o momento de construir o mosaico de entrevistas. Novas verdades sobre o mundo despontam na seleção e organização das imagens, explica o professor em cinema na Universidade de São Francisco, Bill Nichols.

A estratégia de Thiago foi evitar influenciar na cena. A montagem se tornou um processo de construção do discurso coletivo de todos os entrevistados. Para Nichols, o documentário chama atenção para questões importantes e resulta em uma reflexão do espectador sobre os problemas e possíveis soluções da realidade retratada. Para João, “O Complexo” provoca a indignação contra as injustiças que os protagonistas reais sofrem, sensibilizando a população sobre o tema. Esse era o objetivo da obra: mostrar situações corriqueiramente silenciadas.

Nichols também fala da responsabilidade de registrar histórias de pessoais reais, considerando o impacto do documentário na vida dos retratados. Thiago e Attilio Zolin , fotógrafo do filme, contam que é impossível não se comover com a história dos desalojadas e com a tragédia ambiental provocada pelo empreendimento das usinas hidrelétricas. “O documentário é uma forma de ativismo”, defende Thiago.

Deixe uma resposta

Todos os direitos reservados Forest Comunicação 2017
Tree Pixel Agência Digital
Associação Brasileira das Agências de Comunicação